
Aqui vos deixamos, na íntegra, um artigo escrito pelo atleta da MoveFree, Pedro Maia, para a revista "Ciclismo a Fundo". Este artigo, intitulado Ciclismo de longa distância - Como preparar o seu primeiro Grandfundo - não é mais do que um guia de treinos de preparação para provas longas e exigentes, para ajudarem aqueles que pedalam para vencer:
"A época está no seu início, o bom tempo vem aí e o seu objectivo é fazer um evento de longa distância em estrada. Muito em voga no meio do ciclismo, este tipo de eventos tem vindo a aumentar e hoje em dia já se fazem grandes clássicas por todo o mundo.
Antes de começar deve tomar consciência que tem que assumir um compromisso e concentrar-se nos objectivos que quer alcançar. E então, deve começar por colocar algumas questões a si próprio, tais como:
-Será que tenho capacidade para treinar para uma prova de 200 km? Será que conseguirei suportar as intensidades de esforço a que me vou submeter? Terei força de vontade para modificar o meu regime alimentar?
Ou seja estas situações de compromisso é que vão definir o quanto quer alcançar o objectivo.
Existem várias maneiras de assumir esse compromisso não só em relação ao ciclismo mas também em relação a um aumento de boa forma física que sobretudo se vai reflectir na sua saúde em geral.
E sobretudo, não deixe para amanhã o que pode fazer hoje
METODOLOGIA DE TREINO
Não basta só treinar duro, toda a gente o pode fazer, o “truque” está em encontrar a maneira mais rápida, inteligente e eficiente de alcançar os seus objectivos. E sobretudo aprenda com os erros fazendo o possível para nunca os repetir.
COMO ENCONTRAR A INTENSIDADE DE TREINO ADEQUADA
Existem vários métodos para encontrar a sua pulsação máxima ou a sua pulsação no Limiar do Lactato, umas mais científicas do que outras mas para simplificarmos vamos usar um método muito simples mas eficaz o suficiente para ficarmos a conhecer as intensidades que devemos usar nos treinos. O método chama-se “Teste de Stress em Subida” e pode ser feito Indoor ou no terreno. Como acontece na maior parte dos testes não é uma brincadeira e tem que ser eito com a intensidade adequada, mas também não demora muito tempo e só precisa de o fazer uma vez em cada época.
Protocolo: Usando o seu cardiofrequencímetro, aqueça bem +/- 30 minutos até à subida onde vai fazer o teste. Esta subida deve ser longa, e com alguma inclinação (4 a 6%). Comece a subir com uma cadência alta, usando um andamento (mudança) que seja um pouco mais forte que o habitual nestas circunstancias. Levante-se do selim e comece a puxar até ao máximo que conseguir depois faça um sprint como se a vitória no Campeonato do Mundo dependesse dele. E está feito, anote a sua pulsação máxima nestas condições.
Atenção: É aconselhável fazer um exame médico prévio antes de fazer este tipo de testes e só depois de ter o acordo do seu médico então é que os deve fazer.
Se não tiver uma subida por perto, pode usar a sua bicicleta em terreno plano ou fazê-lo Indoor. Mantendo uma cadência de 90 a 100 pedaladas, coloque uns andamentos mais pesados de maneira a aumentar a sua velocidade à roda de 1 km/h a cada 30 segundos. Mantenha esta atitude até chegar a um esforço extremo em que sinta o coração a chegar ao “red-line”.
Assim que tiver o valor da sua Frequência Cardíaca Máxima (FCM) o treino vai tornar-se numa matéria de percentagens pois elas irão definir as Zonas de Treino de maneira a que os mesmos sejam estruturados para o manter em intervalos de pulsação específicos segundo os objectivos a cumprir.
Definição de Zonas de Treino Cardíacas:
ZONAS DE TREINO CARDÍACAS
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Zona 1 |
Menos de 65% da FCM |
Promove recuperação e o uso das gorduras como fonte principal de energia |
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Zona 2 |
65-84% da FCM |
Para aumentar a Resistência aeróbica |
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Zona 3 |
85- 94% da FCM |
Limiar do lactato, onde acontecem as maiores melhorias em termos aeróbicos |
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Zona 4 |
95 – 100% da FCM |
Desenvolve o sistema anaeróbico, utilizado nos sprints e em fases mais intensas de corrida |
NOTA: A fronteira entre a Zona 2 e 3 não deve ser considerada exacta pois existem muitas diferenças individuais, por exemplo um ciclista destreinado pode atingir o seu Limiar do Lactato cerca dos 75% da sua pulsação máxima enquanto outro ciclista em melhor forma pode ter o seu Limiar nos 85% ou mesmo mais. Por isso fique pelos valores mais baixos se ainda está a treinar há pouco tempo, depois à medida que vai evoluindo aumente a percentagem gradualmente. E sobretudo escute o que o seu corpo tem para lhe dizer.
Uma vez calculados os intervalos de esforço, vamos lá então aplicá-los na prática.
Treinar para uma prova de 80 KM
Se pratica ciclismo há pouco tempo, tem que começar por alguma distância, nesta altura 80 km pode parecer-lhe monumental mas com um treino adequado não terá problemas de pedalar entre 3H30 e 4H00 seguidas. Assumindo que está com uma forma decente, bastará este treino de 6 semanas para o colocar em condições e fazer esta quilometragem sem qualquer problema. Se não estiver em forma anteceda este programa com 6 semanas de treino de base onde deverá fazer passeios em terreno variado, adicionando 10% ao tempo ou à distância a cada semana que passa até chegar a 120 km ou 5 horas de treino semanais, nessa altura muda então para este programa.
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Dia de descanso. Para recuperar do treino de do fim-de-semana. Use este dia para fazer treino complementar e treinar os músculos do Tronco e Zona Média no ginásio ou em casa. |
60 a 90 min. com subidas mantenha-se sentado em grande parte de percurso no limite superior da Zona 2. Depois faça sempre sentado dois a três esforços de 2 a 3 min. rondando a Zona 4. |
Descanso total ou 60 min na Zona 1. Treino complementar tal como na 2ª Feira
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60-90 Minutos em Zona 2 excepto duas acelerações de 8 a 10 minutos na Zona 3 |
Descanso total ou 60 min na Zona 1. Treino complementar tal como na 2ª Feira
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90 a 120 min. com um intervalo de 30 min. até atingir o máximo da Zona 2 |
60 a 90 min. Na Zona 2 |
Treinar para uma prova de 160 KM
Depois dos primeiros treinos e provas de 80 km pode passar a um programa mais ambicioso e começar a preparar-se para distâncias até 160 km ou mesmo mais.
Para tal tem que estar preparado para começar a fazer esforços adicionais e mais saídas em grupo. Vai precisar de aumentar o seu conforto a pedalar junto com outros ciclistas pois, grande parte dos eventos têm um grande número de participantes. Tem também que aprender a pedalar na roda pois é uma das melhores maneiras de poupar energia sem perder velocidade (ou mesmo até para ganhar alguma). Se seguir esta prescrição de treino durante 8 semanas, juntando 10% do tempo/distância a cada semana que vai passando e aumentando o volume no treino de Sábado ou Domingo, vai conseguir acabar uma prova de 160 km com alguma energia extra.
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Dia de descanso. Para recuperar do treino de do fim-de-semana. Use este dia para fazer treino complementar e treinar os músculos do Tronco e Zona Média no ginásio ou em casa. |
65 a 120 min. na Zona 2. Nesse tempo coloque à roda de 30 a 45 min. de pequenos contra-relógios na Zona 3 |
Descanso total ou 60 min na Zona 1. Treino complementar tal como na 2ª Feira
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60-90 Minutos em Zona 2 excepto para um intervalo de 30-45 min. No valor mais baixo da Zona 3 |
Descanso total ou 60 min na Zona 1. Treino complementar tal como na 2ª Feira
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2 a 3 horas de treino em grupo em terreno plano, usando um ritmo rápido na roda. O ideal será andar o máximo possível no limite superior da sua Zona 3 |
2 Horas nas montanhas Subindo no limite superior da Zona 2 com períodos curtos (2-3 minutos) no limite superior da Zona 3. Entre subidas pedale no limite inferior da sua Zona 2. |
Claro que existem tantos programas de treino como treinadores, a vantagem dos dois programas descritos tem a ver com a sua flexibilidade pois não tem distâncias específicas tanto diárias como semanais o que permite adaptar à consistência segundo a qual se treina.
RECUPERANDO
Para a semana do evento o mais importante é manter-se consistente. Esta não é a altura ideal para fazer grandes mudanças na sua dieta, nos seus padrões de sono, ou no equipamento. A única coisa que deve alterar é, no entanto, o seu treino. A isto chama-se RECUPERAÇÂO. O objectivo principal é criar uma reserva de energia física e emocional.
Outra regra é a de que vale mais estar “muito descansado do que cansado demais”. É natural querer fazer mais um treino longo ou intenso quando o evento está a poucos dias de distância, é difícil de resistir mas tem que o fazer.
Comece a recuperar até 3 dias antes. Se se sentir mais cansado até o melhor é fazê-lo durante uma semana. As pesquisas apontam para os benefícios de reduzir o volume mas manter a intensidade de treino consistente com o treino que fazemos normalmente. Não pare completamente de treinar pois ainda o vai deixar mais ansioso, mesmo no dia antes do evento, pode e deve fazer um treino leve para “soltar” as pernas e mesmo incluir alguns sprints para aumentar a pulsação e “abrir” os pulmões. No entanto NÃO exagere e não faça nada que o deixe nem que seja remotamente cansado.
SEMANA DE RECUPERAÇÃO EVENTO SÁBADO
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Dia de descanso. Para recuperar do treino de do fim-de-semana. Use este dia para fazer treino complementar e treinar os músculos do Tronco e Zona Média no ginásio ou em casa. |
60min. na Zona 2. Nesse tempo coloque à roda de 30 min. de pequenos contra-relógios na Zona 3 |
60 min na Zona 1.
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Descanso total |
30 min na Zona 1. 3 SPRINTS até ao máximo.
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E V E N T O |
60 min na Zona 1. OU Descanso activo |
SEMANA DE RECUPERAÇÃO EVENTO DOMINGO
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Dia de descanso. Para recuperar do treino de do fim-de-semana. Use este dia para fazer treino complementar e treinar os músculos do Tronco e Zona Média no ginásio ou em casa. |
60 min. em Zona 2 excepto para um intervalo de 30 min. No valor mais baixo da Zona 3 |
60 min na Zona 1.
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60 min. na Zona 2. Nesse tempo coloque à roda de 30 min. de pequenos contra-relógios na Zona 3 |
Descanso total |
30 min na Zona 1. 3 SPRINTS até ao máximo.
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E V E N T O |
NOTA: Se o evento for Sábado e Domingo, siga a programação como se o evento fosse Sábado. Não se esqueça do aquecimento e do arrefecimento, são essenciais para prevenir lesões, ajudar na recuperação e ao mesmo tempo aumentar as suas capacidades físicas desde o início do esforço. Mesmo no dia do evento deve fazer um aquecimento antes de começar e pode fazer algo idêntico ao que fez no dia anterior, mais curto +/- 30 minutos com três sprints ao máximo.
Será que as classes de Spinning® vão-me ajudar no exterior?
O Spinning® é uma das actividades mais populares dentro dos ginásios. Uma classe de Spinning® bem programada pode ser um excelente veículo de treino, claro está que terá que se adaptar aos esquemas que o instrutor tiver programado e incluí-los no seu programa de treinos. Pode mesmo, combinado com o instrutor adaptar a aula ao treino que pretender fazer naquele determinado dia. No entanto prepare-se sempre para suar.
E falando em treino Indoor, podemos sempre fazer a transferência dos treinos de exterior
para a “comodidade” do lar usando um “Trainer” ou rolos, reduza em cerca de 30% a duração e é natural ser mais difícil atingir a Zonas de pulsação mais elevadas (Zona 4) por isso tem que se adaptar e usar também a sua percepção de esforço. Também é aconselhável usar um sítio arejado e se não for possível usar uma ventoinha para refrigerar. E nesta situação, ter um cuidado acrescido em manter-se hidratado.
Como é que sei que estou Sobre treinado?
Se tem uma profissão, família e amigos, deverá estar “sobre stressado” não sobre treinado. Sobre treino é uma palavra que está na moda mas é muito difícil de definir. Na maior parte das vezes, o verdadeiro sobre treino é algo que só acontece a atletas profissionais que passam horas e horas a treinar e não permitem que haja tempo para recuperar entre treinos. Os sintomas vão desde depressão, aumento da pulsação em repouso e insónia até sistema imunitário fraco, falta de energia e falta de desejo para treinar. A maior parte de nós não tem tempo para se sobre treinar, mas ao mesmo tempo podemos aprender com os atletas que o fazem. Um dos factores mais importantes a recordar é que se queremos que a nossa capacidade melhore, o nosso corpo precisa de tempo para descansar e recuperar. Talvez não esteja a fazer 3 treinos de 5 horas por dia, mas se não dormir o suficiente, não tiver dias de descanso e insistir em tornar cada treino numa corrida contra o cardiofrequencímetro, o seu corpo não vai ter capacidade de recuperar e tornar-se mais acondicionado.
SINTOMAS DE SOBRETREINO
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Físicos |
Comportamentais |
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Redução nas performances |
Apatia |
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Fadiga constante |
Letargia |
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Alterações do peso |
Depressão |
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Aumento da sede |
Má concentração |
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Mudança na pulsação Basal |
Mudanças nos padrões de sono |
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Dores musculares |
Irritabilidade |
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Inchaço das glândulas Linfáticas |
Diminuição da libido |
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Diarreia |
Ficar desajeitado |
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Maior incidência de lesões |
Ficar molengão |
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Infecções |
Apetência de açúcar |
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Amenorreia (nas senhoras) |
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Redução na pulsação de treino |
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As feridas demoram a sarar |
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Se sentir um ou mais sintomas daqueles aqui descritos, descontraia e faça uma reflexão sobre o que é o ciclismo e permita-se olhar e usufruir mais da paisagem assim como da conversa com os amigos do pedal.
Agora mãos e pernas à obra, a prescrição está feita e sobretudo seja sensato e vá reagindo por percepção e sensação de esforço. O seu corpo tem sempre a última palavra e como tal esteja atento e evite situações de exagero e sobretreino.
No próximo artigo falaremos sobre as estratégias de aquecimento, de corrida e também sobre os ajustes a serem feitos em termos de nutrição para longas distâncias.
LIVE, LOVE, RIDE"
Esperamos que possam retirar deste artigo e da vasta experiência do Pedro Maia, as dicas e truques que necessitam para pedalar cada vez mais e melhor e assim conseguirem os vossos objectivos.
Boas pedaladas!